Em 1978, nasceu na Inglaterra o primeiro bebê de proveta do mundo. Depois dele, os casos de reprodução assistida vêm aumentando consideravelmente. Um dos principais motivos que estimulam a procura de tratamentos para engravidar é a idade das mulheres. Afinal, cada vez mais elas investem primeiro na sua vida profissional para, só depois, pensar em ter filhos.
Quando o relógio biológico toca, elas já estão se aproximando de uma idade em que as chances de gravidez natural são muito pequenas. Segundo o especialista em reprodução humana Joji Ueno, da Clínica Gera, em São Paulo, aos 35 anos, cerca de 11% das mulheres são inférteis. Este número sobe para 33% quando elas chegam aos 40 anos. Contudo, além da idade, outros fatores contribuem para a esterilidade feminina. Os mais comuns são: distúrbios ovulatórios ou endócrinos (como a síndrome de ovários policísticos), laqueaduras (que na maioria das vezes podem ser revertidas), endometriose e fatores tuboperitoneais (como trompas aderentes ao útero). Algumas dessas causas podem estar associadas a doenças metabólicas, como diabetes, a desordens alimentares, como bulimia e anorexia, ao tabagismo, ou ainda ao excesso de exercícios físicos. Hoje, a infertilidade conjugal acomete de 10 a 15% dos casais no mundo.
Por essa razão, quem quer ser mãe, às vezes, precisa contar com a ajuda da ciência. Joji Ueno recomenda, antes de tudo, que o casal descubra o motivo da infertilidade: "Em primeiro lugar, deve-se procurar um especialista para fazer o diagnóstico. Depois, é preciso saber como tratar o problema", afirma o ginecologista, que só sugere um método artificial em último caso. Segundo ele, a inseminação intra-uterina e a fertilização in vitro são procedimentos mais caros, desgastantes para a mulher e apresentam taxas menores de sucesso. "Sempre tento estimular a gravidez da forma mais natural possível. Inicialmente, o ideal é tratar a causa da infertilidade, seja ela feminina ou masculina, e, caso a fecundação não ocorra, recorrer aos métodos de reprodução assistida", indica.
Homens e mulheres têm praticamente a mesma porcentagem em casos de infertilidade - ou seja, nem sempre é a mulher que é estéril. De acordo com Joji Ueno, cerca de 30% dos casos devem-se a fatores masculinos, número equivalente aos casos cuja origem provém de fatores femininos. Nos 40% restantes, os problemas são de ambos. Paulo Gallo, chefe do setor de reprodução humana do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), afirma que as disfunções relacionadas ao homem em geral afetam a produção dos espermatozóides, que pode ser pequena ou deficiente, comprometendo a qualidade deles. "Normalmente, doenças congênitas e genéticas estão envolvidas nesses fatores", exemplifica.
Dependendo da avaliação feita do casal, há três formas de se tratar a esterilidade: "Há o tratamento clínico, mais simples, controlado apenas por medicamentos, o tratamento cirúrgico e as técnicas de reprodução assistida", informa Gallo. Se a infertilidade for resultado de uma infecção, o uso de remédios pode resolver o problema e permitir a gravidez naturalmente. Em outras situações, a histeroscopia e a videolaparoscopia podem detectar e cuidar de doenças ginecológicas, como a endometriose, comum em 10% das mulheres, e assim devolver à mulher a fertilidade.
Vanusa Correa, de 28 anos, fez tratamento com indução de ovulação, muito comum entre mulheres que possuem distúrbios hormonais. Mas somente após seis anos de tentativas frustradas, ela descobriu que sofria também de outro problema: tinha ovários micropolicísticos. "Eu tinha medo de não conseguir ter filhos. Cheguei até a freqüentar psicólogos durante esse tempo. A partir do terceiro ano de tentativas, eu não podia mais ver mulher grávida que eu ficava mal", confessa Vanusa, que engravidou depois de uma cirurgia de videolaparoscopia. "Mesmo após operação eu continuei tomando hormônio (progesterona) para tratar os micropolicistos. Mas em quatro meses consegui engravidar. Hoje minha filhinha está com três meses", conta.
Técnicas de reprodução assistida
Quem já passou pelos tratamentos menos invasivos e não obteve sucesso pode recorrer às técnicas de reprodução assistida. Tanto a inseminação intra-uterina quanto a fertilização in vitro são métodos artificiais que não garantem, mas aumentam bastante as chances de ocorrer a tão sonhada gravidez. Há também o método do coito programado, que, assim como a inseminação, é considerado de baixa complexidade. Com este procedimento, a mulher toma remédios para ovular e procurar ter relações sexuais em dias específicos. Na inseminação, os espermatozóides recebem uma ajuda extra, mais técnica, para chegarem ao destino. Nos dois métodos, a fecundação acontece dentro do corpo da mulher, enquanto que, no processo in vitro, ela se dá externamente: o espermatozóide é colocado dentro do óvulo, que depois é introduzido novamente na mulher.
Existem dois tipos de fertilização in vitro: a convencional (FIVC) e a injeção intra-citoplasmática de espermatozóide, mais conhecida pela sigla ICSI - ambas feitas no laboratório. "Na primeira, o encontro de um dos espermatozóides com o óvulo é induzido em um meio de cultura. Ela é recomendada quando as células masculinas têm uma qualidade razoável. Na ICSI, há a introdução do espermatozóide diretamente no óvulo por uma agulha bem fina. Este método é aconselhado no caso de espermatozóides ruins, incapazes de penetrarem sozinhos", explica o especialista Paulo Gallo.
Michelle Pinho tentava engravidar há quatro anos, e não achava solução. Os exames detectaram infertilidade sem causa aparente, então ela decidiu apostar na técnica de fertilização in vitro. "Poucas pessoas ficaram sabendo, pois eu tinha medo de não conseguir desta vez. Mas todo o tratamento correu bem e tudo deu certo", revela Michelle, que aos 30 anos está curtindo seu primeiro mês de gestação.
Esse tipo de fertilização para mulheres até 40 anos tem uma taxa de sucesso maior que a da inseminação intra-uterina, cujas probabilidades de gravidez variam entre 10 e 20%. No entanto, o método in vitro tem um preço bem mais elevado: "A inseminação chega a ser de cinco a dez vezes mais barata", informa Joji Ueno. O ginecologista indica que a fertilização seja feita somente para quem tem problemas nas trompas. "Na maioria dos casos, é desnecessária e acaba acarretando um custo alto à paciente e ao casal, não só financeiramente, mas emocionalmente", alerta ele.
Quanto a possíveis complicações, Joji Ueno afirma que, por serem procedimentos cirúrgicos, qualquer um dos métodos de fertilização oferece riscos: "A histeroscopia e a laparoscopia são operações arriscadas se não forem feitas por profissionais competentes. Nos métodos para bebê de proveta, o problema mais comum, embora ainda seja muito raro acontecer, é a síndrome de hiperestimulação ovariana, causada pelo uso de hormônios que produzem a ovulação", avisa o especialista.
É indicado que um casal procure um especialista para tratar a infertilidade após um ano de tentativas sem sucesso. Mas Paulo Gallo faz uma observação relevante: "Tem que ser um ano sem usar nenhum método contraceptivo, é claro, e mantendo relações sexuais com o parceiro freqüentemente. Ou seja, de duas a três vezes por semana". No caso de mulheres mais velhas, esse tempo pode ser encurtado, visto que naturalmente elas terão mais dificuldades de engravidar sem acompanhamento médico. Após os 40 anos, Paulo Gallo indica que a melhor solução para aquelas que desejam ter filhos é a ovodoação, ou seja, a doação de óvulos de outra mulher, mais jovem, para realizar a fertilização in vitro.
Para quem se interessa pelo assunto e deseja recuperar a fertilidade, mais informações estão disponíveis nos sites: