Também conhecida como Síndrome de Stein-Leventhal, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) se caracteriza, principalmente, por períodos nos quais não ocorrem ovulações, ou até mesmo ausência de menstruação. Há também manifestações de hiperandrogenismo, ou seja, sinais e sintomas decorrentes das altas concentrações de hormônios sexuais masculinos no sangue como, por exemplo, a acne e a presença de pelos grossos e escuros em locais tipicamente masculinos, como abdômen, buço, tórax etc.
A síndrome está ligada à obesidade; alteração dos níveis normais de lipídeos no sangue; alterações na pele, como acne; aumento da oleosidade (seborréia); perda de cabelo na parte frontal; e surgimento de lesões espessas e escuras em áreas de dobras cutâneas (axilas, embaixo das mamas, nuca etc). Esta lesão é um fenômeno comum da SOP e está relacionada ao aumento dos níveis de insulina circulante no sangue, uma vez que os tecidos periféricos estão mais resistentes a ela.
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Esta é uma síndrome muito comum: de 5% a 10% das mulheres em idade reprodutiva são portadoras. Estudos comprovam que o risco aumenta para filhas de mães portadoras da SOP, ratificando a existência de um componente genético envolvido. Quando a mulher apresenta infertilidade ou irregularidade menstrual, deve-se atentar à possível presença de SOP, já que 30% a 40% de pacientes com infertilidade e cerca de 90% com irregularidade menstrual são portadoras da doença. A obesidade e a hipertensão arterial são patologias muito frequentes nas mulheres que apresentam SOP, cerca de 50% e 40%, respectivamente.
O motivo exato pelo qual a doença se instala ainda não é muito claro, sabe-se que é uma doença multifatorial, com início ainda na fase fetal, porém envolvendo diversos compartimentos orgânicos, entre eles, os ovários; o eixo hipotálamo-hipofisário, que regula a liberação dos hormônios sexuais; as glândulas adrenais, que tem como uma das funções a liberação de hormônios sexuais; e o compartimento periférico, representado principalmente pela pele e tecido adiposo.
Há grande alteração enzimática e hormonal em todos os sistemas, que leva a um quadro de hiperandrogenismo, agravado pela grande resistência insulínica dos tecidos periféricos, podendo gerar a hiperglicemia e, até mesmo, o diabetes tipo 2, já que a insulina tem como principal função a diminuição da glicemia.
O resultado final desta série de eventos é uma atresia folicular sem maturação de um folículo dominante, capaz de fecundar, fazendo com que todos os folículos comecem a atrofiar. Este hiperandrogenismo faz com que mais estrogênio seja produzido, principalmente no compartimento periférico (gordura), porém os níveis de progesterona continuam baixos, já que não há maturação folicular nem formação de corpo lúteo, principal responsável pela produção de progesterona no ciclo menstrual fisiológico.
Como diagnosticar? Para diagnóstico da síndrome, além de exame físico completo, é importante que outras causas de irregularidades no ciclo menstrual sejam descartadas, principalmente o hipotireoidismo e a hiperprolactinemia. Para que se confirme o diagnóstico, depois de descartadas as outras hipóteses, é importante uma ultrassonografia para visualizar os ovários policísticos.
A paciente portadora de SOP deve ser acompanhada de perto por equipe multidisciplinar. É uma doença que aumenta a prevalência de outras desordens, tais como o diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia, que acabam por aumentar os riscos de doenças cardiovasculares. Estudos atuais mostram que, por ser uma síndrome na qual há grande estímulo de estrogênio no organismo, porém sem a oposição do hormônio progesterona, estas pacientes possuem risco aumentado quanto ao desenvolvimento de câncer de mama, ovário e endométrio.
O tratamento da SOP não deve apenas consistir no controle menstrual e retorno da ovulação. É uma doença que envolve o organismo como um todo. Sabe-se que a redução de peso, com atividades físicas (aeróbicas) e dieta controlada, auxilia no controle das doenças cardiovasculares e diabetes. Já estando comprovado, também, que somente com a redução do peso corporal podemos estabelecer a volta da ovulação, pela melhora da resistência insulínica.
Conheça o tratamento O tratamento mais eficaz contra a irregularidade menstrual da SOP é o uso de hormônios, pílulas anticoncepcionais combinadas (estrogênio e progesterona), que são a primeira escolha para as pacientes que não desejam engravidar. Estas pílulas regularizam os ciclos menstruais e, deste modo, diminuem os riscos do desenvolvimento de cânceres estrogênio-dependentes, além do alívio dos sintomas de hirsutismo e acne.
Para aquelas que desejam engravidar e/ou não podem usar a pílula combinada, podem ser utilizadas pílulas apenas com progesterona para restabelecimento da regularidade do ciclo menstrual. O caso específico de desejo de gravidez deve ser acompanhado de perto pelo ginecologista, com monitoramento ultrassonográfico, para que sejam tomadas medidas para ajudar a ovulação e a fecundação.
Não são todas as mulheres que necessitam do tratamento hormonal. Se uma portadora de SOP apresentar de 8 a 12 ciclos regulares por ano, poucos sinais e sintomas de hiperandrogenismo, ela pode optar por não usar medicamento hormonal, mas deve ser acompanhada regularmente, pois ainda apresenta riscos de desenvolvimentos de diabetes, dislipidemia, etc.
Podemos, ainda, tratar os sintomas de hirsutismo e acne de maneira individualizada para os casos refratários à melhora com a pílula. Já para o tratamento da resistência insulínica, muitos estudos estão mostrando que a droga metformina, muita usada em pacientes diabéticos, vem apresentando grandes resultados para o tratamento da SOP, inclusive com a regularização da ovulação.
O tratamento cirúrgico é reservado para casos especiais. Geralmente só é feito quando há outra indicação para a realização de uma videolaparoscopia, ou seja, por meio de uma ótica introduzida pelo umbigo e pinças finas introduzidas pela pele, são feitas cauterizações nos ovários para estimulação da ovulação.
Cada paciente portadora de SOP deve ser acompanhada de forma individualizada, os sintomas e sinais são variados, assim como o tratamento de cada uma. Devemos deixar claro que, por mais relacionada que esta doença esteja com a obesidade, não é uma doença exclusiva de pacientes obesas, mulheres magras também podem apresentar o problema, assim como a resistência insulínica isoladamente.
Quer engravidar? Leia mais matérias de planejamento AQUICláudio Crispi é ginecologista, coordenador geral da pós-graduação em videoendoscopia ginecológica do Instituto Fernandes Figueira (Fundação Oswaldo Cruz), 2º vice-presidente da Sociedade Brasileira de Videocirurgia (SOBRACIL), autor do Tratado de Videoendoscopia Ginecológica (Atheneu, 2007) e membro da AAGL (American Association of Gynecologic Laparoscopists)