Muito se tem falado sobre a crise da ética em nossa sociedade. A mídia divulga, a todo o momento, escândalos que emergem de diferentes meios sociais, do âmbito político e da esfera econômica. Curiosa é nossa reação. Ficamos indignados nos primeiros segundos, até mesmo revoltados, mas acabamos deixando de lado estes sentimentos porque apenas um desconforto básico vem tomar seu lugar. Infelizmente acontece muito. Acontece porque outras notícias trarão novos absurdos que não temos sequer tempo de digerir. Acostumados a chamar tal comportamento de banalização disso ou daquilo, sequer nos perguntamos o motivo de estarmos tão imunes aos desmonoramento dos valores que deveriam nortear nossa escuta e olhar para acontecimentos do cotidiano. Isso tem um preço. Um preço alto que pagamos quando vemos que nem tudo está caminhando da maneira desejada na educação que imaginamos dar aos nossos filhos.
Não se aprende ética e cidadania na escola. A educação formal, escolar, pode reforçar os valores morais necessários para a formação de um cidadão consciente, mas é na família que os modelos de conduta são adquiridos. Se nós, adultos, descumprimos regras sociais, mesmo que menores como, por exemplo, jogar um papel de bala pelo vidro da janela do carro, ensinamos as crianças que as regras podem ser desrespeitadas. E se as regras não são para serem cumpridas, tão pouco as normas sociais devem ser aceitas. Todo o trabalho que tentamos fazer com as crianças sobre valores morais, padrões de conduta e ética fica seriamente ameaçado quando desde pequenos acostumam-se a burlar regras simples. E o mais complicado: sem pensar que o espaço do outro está sendo invadido com a atitude tomada.
Muitos pais se perguntam como seu filho chegou a cometer um delito grave na adolescência. Pensam que cumpriram sua tarefa educativa e ficam frustrados com os resultados obtidos. No decorrer dos anos, não perceberam que gestos educam mais que discursos e que foram o modelo todo o tempo, mesmo quando distraídos. Gostei da história que Amma, líder humanitária indiana que tem uma fundação reconhecida pela ONU como uma das mais importantes do mundo, criadora de uma das maiores obras assistenciais do planeta, que abraça individualmente milhares de pessoas, contou em sua palestra, ontem, no Brasil. Foi mais ou menos assim:
"O pai chamou o filho para conversar e disse que ele não deveria nunca ir a uma boate. Querendo saber o motivo da proibição, questionou o pai que explicou que ele acabaria vendo coisas que não deveria. O menino ficou louco de curiosidade e decidiu ir a tal boate.
No dia seguinte, virou para o pai e disse:
- Pai, fui à boate e vi coisas que não deveria.
O pai irritado perguntou o que ele havia visto. E ele respondeu:
- Eu vi você, pai!"
Os filhos copiam o modelo dos pais porque gostam deles e os admiram. Interiorizam valores observando como os pais resolvem as questões diárias. Inclusive como reagem frente ao noticiário da TV. Portanto, é da família, e principalmente dos pais, a função de ensinar valores éticos. E não adianta alegar que não tem tempo, que paga a escola para isso, que hoje em dia com o advento do computador as coisas mudaram, ou usar qualquer outro argumento similar.
Claro que os pais erram e têm esse direito. Claro que a responsabilidade não é integralmente do modelo que passam aos filhos. Existem muitos outros fatores que determinam com que valores a criança agirá em sua vida adulta. Este é apenas um dos pontos. Cabe a reflexão sobre ele.
Todas as formas de relacionamento que possamos pensar podem ajudar aos pais a conseguirem melhores resultados diante do desafio de educar. Estar atento ao desenvolvimento dos valores morais, quer seja com nossas próprias atitudes, quer seja com o exercício do diálogo, da empatia e da reflexão, é uma forma de evitar que comportamentos socialmente inaceitáveis apareçam.
Outra saída positiva é ensinar que muito se aprende com o erro. Que também os adultos erram, mas refletem sobre o erro e mudam de atitude. A aprendizagem só acontece quando há mudança de comportamento. É preciso que os pais criem espaços em que as crianças possam exercitar a reflexão. Pensar sobre tal notícia, sobre este ou aquele conteúdo de filme, sobre um sentimento ou reação que determinada cena de novela desencadeou. Também é necessário que nossos diálogos tornem-se de fato diálogos. O famoso "senta aqui e vamos conversar" que na verdade é "vem cá que agora você vai me ouvir", não funciona. Não contribui para a reflexão, não favorece a formação de valores.
O diálogo pressupõe falar e ouvir, trocar, compartilhar. Deixando que os filhos argumentem, podemos construir em cima do que trazem em sua fala. Permitimos a reflexão crítica e a empatia. Ouvir o outro, respeitar suas idéias, colocar-se em seu lugar para tentar entender suas razões são pontes para formar um cidadão comprometido com a ética e embuído de valores morais.
Lucíola Agostini é psicopedagoga clínica, pedagoga e dinamizadora de oficinas nas áreas de educação, teatro e vídeo do Apprendere Espaço Psicopedagógico.
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