O presente artigo tem como objetivo discutir a validade da educação sexual para crianças, considerando entre outros aspectos, a importância de se compreender que cada criança é um ser único, com necessidades distintas. As crianças apresentam variações quanto às suas necessidades. Apesar de muitas vezes o adulto considerar a idade como instrumento de medição, para dar a elas certas informações, o que está em jogo de fato é a maturidade emocional, cuja conquista se dá a partir das experiências que vivem, principalmente, junto à família.
Muito mais importante do que "educar" sobre a sexualidade são as descobertas feitas pelas crianças no próprio corpo, pois as informações que vêm de fora para dentro através dos discursos, muitas vezes de cunho moralista, podem empobrecer a experiência infantil.
Alguns pais têm, de fato, a sexualidade como um tabu compreendendo o tema como algo pertencente apenas ao mundo adulto. No entanto, proponho a todos que pensem na importância do corpo desde o nascimento e o prazer que é sentido pela criança desde o início da vida quando ainda é amamentada ao seio. É importante lembrar que o corpo da criança é um corpo sexualizado.
No atendimento aos pais de crianças pequenas, dúvidas sempre surgem, e junto a elas, certa dificuldade em lidar com alguns temas como, por exemplo, a masturbação. Importante então saber que a masturbação é de grande importância para as crianças. Ela é natural, pois trata-se de um momento em que a criança pode se encontrar com ela mesma e com o seu corpo.
O que seria prejudicial, pois pode apontar para alguma dificuldade que a criança esteja passando, é a compulsão em se masturbar. Isto é, quando a criança o faz a qualquer hora, em qualquer lugar ou ainda quando diante de situações que geram sentimentos como ansiedade, insegurança ou medo.
Muitos pais sentem-se embaraçados quando são abordados pelos filhos com perguntas referentes à sexualidade. Porém, para responder ou escutar algo que a criança traz das suas experiências, como a masturbação, por exemplo, devem sentir-se confortáveis e cuidarem para não tratar do assunto com juízo moral. Caso sintam dificuldade, vale buscar ajuda de um profissional que o oriente.
Durante a infância é comum que as crianças toquem umas as outras, fazendo essas experiências entre elas, principalmente entre os iguais, meninas com meninas e meninos com meninos. Essas brincadeiras sexuais são organizadoras e importantes para que posteriormente, na fase adulta, possam viver o sexo genital maduro. Não se trata de estimular a criança, até porque é inerente do ser humano viver essas experiências, ainda que com medo e culpa (a não ser que passe por um processo de privação ou negação). Mas trata-se de entender que essas experiências são naturais e saudáveis e, portanto, não devem ser tratadas como algo errado.
Muitos adultos não recordam deste período da vida infantil. Talvez, por isso, da dificuldade em lidar com o assunto. Não se pode tratar o tema como tabu ou se assustar e pensar que um menino de três anos que mostra o "pintinho" para a menina no cantinho do quintal tem sua sexualidade exacerbada.
As brincadeiras de "mamãe-e-papai", "casinha" e "médico" são importantes brincadeiras usadas como possibilidade de viver essas experiências. Uma outra forma de saber, encontrada pelas crianças pequenas, é a que se refere aos conhecimentos das plantas e animais. É natural gostarem de saber o que há por dentro deles, como vivem, como constroem as suas famílias etc. Não há nada de inocente nessas curiosidades e o que se pode pensar é que, na tentativa de acompanhar como vive o bichinho, estarão ao mesmo tempo perguntando-se sobre elas mesmas e nesta "brincadeira" vão encontrando algumas respostas para suas curiosidades.
Diferentemente dos pais que se sentem inibidos e preocupados se os filhos são precoces, existem os pais que querem antecipar e estimulam as crianças com imagens, comentários e brincadeiras totalmente inadequadas. Ainda é comum pais que pensam que filhos homens precisam ser estimulados, "assegurando-se" desta forma, de que se tornarão heterossexuais. Cada coisa no seu tempo!
É importante ressaltar que quando se fala de sexualidade infantil o que está em jogo são todas as zonas que dão prazer e estão para além de uma compreensão biológica ou fisiológica: como o sugar o polegar do bebê e a retenção das fezes. Quando falamos de sexual não o reduzimos ao genital.
Vale também reafirmar a necessidade de pais e professores prontos a responder às demandas vindas dos seus filhos e alunos, livre dos preconceitos. Certamente se a criança puder contar com pessoas próximas a ela terá ganhos inqüestionáveis. Por outro lado, não se pode dizer o mesmo de uma "educação sexual" organizada e padronizada pronta a atender a uma demanda social que desconsidera o sujeito como um sujeito sexualizado.
Mônica Donetto Guedes é psicanalista, psicopedagoga e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.
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