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O direito de brincar
É preciso garantir o lazer gratuito e acessível para todas as pessoas
Por Elke Servaes • 11/09/2007

A praça. Que lugar lindo é a praça! Mais lindo, ainda, com crianças, mães e namorados. Como descrever, ainda, aquela pelada, suada e barulhenta, no fim de tarde depois do trabalho? E se colocássemos alguns animais na praça? Patos no lago, esquilos nas árvores. Vou pintar a minha praça de amarelo e roxo. Ipês floridos a enfeitar o meu dia. Um coreto antigo, cercado da grade inglesa importada no início do século passado. Nele, alguns bancos, com senhoras conversando e vendo a vida passar. Debaixo da figueira, um tabuleiro, um jovem e seu avô. Tem também um balanço, com tranças e vestido xadrez vermelho. À esquerda, um jogo de bolas de gude disputadíssimo, enquanto a viola toca Noel. À direita, um menino interage com uma fila de formigas. Coloca pedrinhas, gravetos e curiosidade.

No Art 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente vemos que: É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e convivência familiar e comunitária.

Nenhuma deficiência, seja ela qual for, é um passaporte para uma vida desprovida de alegria, festa, lazer

Neste artigo refletiremos um pouco sobre o direito ao lazer. Sem dúvida alguma, todos sabem o que é lazer. Desnecessário seria eu colocar aqui uma série de conceitos e explicações relativos ao tema. Da mesma forma que os conceitos de liberdade, igualdade ou fraternidade, tememos em divagar sobre as definições de lazer sob o risco de virar uma tese ou dissertação. Deixemos, portanto de lado as suas inúmeras variáveis e vamos ao que nos interessa: o nosso conhecido LAZER do dia-a-dia!

Lazer é lazer. Lazer é a falta total de compromisso com o trabalho. Aliás, é a antítese natural do trabalho. Como então garantir que crianças e adolescentes, bem como nós, adultos, tenham este direito atendido? Por que será que um direito tão natural deve ser prescrito por lei?

Ora, desde que o mundo é mundo os seres humanos necessitam de comida e abrigo para sobreviverem. Alguns inventaram a roupa lavada, mas isso já foi mais tarde. Do que mais precisamos? Precisamos de gente, de gente que goste da gente, de conversar, namorar... Protegermo-nos do frio, da chuva, do calor. Ou seja, necessitamos cumprir as exigências naturais de sobrevivência.

Lazer? Lazer pra quê? Pra nada! Por que tudo precisa ter um "para quê"? Espaços de lazer? Recursos para o lazer? Onde estão? No Chuí? Ou será no Oiapoque?

No Art. 59, vemos que os Municípios, com apoio dos Estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude.

Praças, parques, florestas e... ACESSO!!!! Isso mesmo, ACESSO! Um lazer gratuito e acessível a todos. Um lugar onde todos possam se esconder de todas as obrigações e todos os "para quês". Um lugar no qual as mães levam seus filhos pra brincar, conviver, descobrir, se encantar. Um lugar onde todos os filhos e todas as mães se enfeitam de roxo e amarelo. Onde os cegos enxergam alegria, os surdos ouvem a algazarra e os cadeirantes brincam de pique.

Você tem direito ao lazer! Seu filho também tem direito ao lazer! Nenhuma deficiência, seja ela qual for, é um passaporte para uma vida desprovida de alegria, festa, lazer. Precisamos de praças e espaços de lazer, acessíveis (realmente acessíveis) para todos. Isto é, sem barreiras arquitetônicas e sem as barreiras da alma.

Lá, na Terra do Respeito e da Dignidade Humana, a Praça é linda porque é de TODOS. E, é pra lá que eu vou!

Vem, vem comigo você também!

"A praça! A praça é do povo

Como o céu é do condor;

É o antro onde a liberdade

Cria águias em seu calor"

(Castro Alves)

Assista aqui a um vídeo.



Elke Servaes é pedagoga com especialização em inclusão, autora de manuais e artigos sobre Educação Infantil e ministrante de cursos na área de inclusão e estratégias pedagógicas.   Leia mais deste autor.




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