São duas horas da manhã e você acorda com o toque da mãozinha de seu filho puxando o lençol para deitar-se ao seu lado. Nem se espanta. Afinal é o que crianças mais gostam de fazer. Mas a maioria dos pais não entende o motivo desse comportamento infantil - Por que meu filho vai para a nossa cama, se tem uma caminha confortável, um quarto bonito? A explicação vem de Márcia Modesto, psicanalista e terapeuta de casais e família: "A criança pode estar com medo, pois seu mundo de fantasia também é invadido por monstros ameaçadores; sente saudade dos pais, que ficaram o dia todo fora de casa. Ou, simplesmente, quer carinho, calor", esclarece. Mas esse hábito, a princípio inocente, pode gerar problemas futuros.
Durante a gravidez, a jornalista Fábia Oliveira, de 31 anos, e o marido, o militar Maycon Brendler, de 24, prepararam com carinho o quarto onde o bebê dormiria ao sair da maternidade. No primeiro ano de Luiza, hoje com dois anos, o casal se revezava em idas até o quarto da filha para cuidar dela ou amamentá-la. Assim, a menina aprendeu a dormir na própria cama. Há um ano, Luiza sofreu uma gripe complicada e precisou tomar medicamentos fortes. Foi levada para a cama dos pais, porque Fábia temia que ela não respirasse, ou sofresse outros problemas durante a noite. Além disso, o casal andava cansado.
Desde então, Luiza não quer mais dormir em seu quarto. Toda noite, Fábia e Maycon esperam que ela durma e a levam para a cama nova, comprada como incentivo. Só que às duas, três horas da manhã, a menina volta. Os pais entregam os pontos e a pequena dorme com eles até de manhã. O casal procura conversar sobre o assunto com a filha, mas não tem sido bem-sucedido: se a mãe começa a falar, Luiza não lhe dá a mínima atenção. Se Fábia se mostra mais enérgica, Luiza chora e chama o pai. Quando Maycon toma a iniciativa da conversa, a espertinha apela para a mãe.
A rotina familiar é outro fator que costuma gerar as invasões infantis. O engenheiro Antonio Matos e a publicitária Maria Manuela, casados há oito anos e pais de Marina, com seis anos incompletos, mudaram de casa em 2005. A menina, então com dois anos e seis meses, já dormia sozinha, mas rejeitou o quarto na casa nova. Dizia ter medo de barata e de ficar no escuro. Uma aparente solução para o impasse veio com o hábito de Antonio ficar na sala até tarde, assistindo a televisão. Sua ausência no quarto do casal permitiu que a filha se instalasse ao lado da mãe, onde passou a dormir. Ainda hoje, ao se recolher, Antonio ocupa o espaço que sobra.
O estímulo para o comportamento de Marina veio, portanto, de fatores associados, como a mudança de casa, a rotina televisiva de Antonio até altas horas da noite e a receptividade dos pais às suas investidas. Enquanto a menina promete que passará a dormir em seu quarto quando fizer aniversário, Manuela e Antonio namoram em outros espaços da casa ou simplesmente saem, o que antes também não agradava à filha. Eles lhe dizem: "Papai e mamãe precisam passear, namorar..." Consciente do problema que ajudou a criar, o casal não nega sua insatisfação e admite a necessidade de uma revisão nas regras familiares.
Soluções ao alcance dos pais
Na hora de dormir, os especialistas recomendam que a criança seja levada para seu quarto e tratada com carinho pelo pai, pela mãe ou por outro responsável. Esses momentos devem ser de aproximação e camaradagem, com direito a conversas, confidências, alguma novidade interessante. Nada mais gostoso para os pequenos do que ouvir histórias antes dos beijos e do "boa noite" afetuoso. A porta entreaberta para um local iluminado ou o foco de uma lâmpada suave podem ajudá-los a vencer o medo.
Se a criança já caminha e consegue chegar repetidas vezes à cama dos pais, deve ser sempre conduzida de volta para o berço. A tarefa é desgastante. Por isso, mesmo depois de um dia de trabalho, o casal precisa manter a determinação. A psicopedagoga Cristina Leão sugere que, nesse retorno, o pequeno receba um pequeno objeto do quarto dos pais para manter junto de si. Pode ser uma almofada, um porta-retratos ou uma fronha que, simbolizando a presença do pai e da mãe, funcionará como objeto de transição. O bebê que ainda não sai do berço e reclama atenção à noite precisa contar com uma presença tranqüila até pegar no sono. Para não despertá-lo, convém instalar em seu quarto uma lâmpada fraquinha, sem acender luzes fortes.
Cristina Leão adverte que as invasões noturnas também precisam ser tratadas de modo bem objetivo com a criança: "Você tem direito à sua caminha, e papai e mamãe (ou papai, ou mamãe, se o casal está separado) têm direito à cama deles. É assim que cada um vai dormir". Estas conversas devem ser marcadas pela afetividade, mas exigem firmeza, segurança". Márcia Modesto acrescenta: "Em tais situações, é essencial a união dos pais, que ajuda a evitar a sensação de poder da criança. O papel de ‘dominadora' do espaço familiar é prejudicial à sua formação, além de interferir no relacionamento do casal". Segundo a a terapeuta de casal e família, "quanto mais cedo o filho descobre seu verdadeiro lugar no grupo familiar, mais ganha independência".
A volta do pai ou da mãe de viagem ou a reunião da família para ver um filme são exemplos de situações especiais, nas quais essas regras podem ser negociadas. Mas segundo Cristina, visitas esporádicas dos filhos à cama do casal não significam a negociação de sua intimidade. Também vale lembrar que ao aprender a respeitar o espaço do pai e da mãe, a criança tem, igualmente, seu espaço respeitado - e seu filho começará a reconhecer a noção de limites.
Assine nosso RSS