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Mãe real
A mãe não é um ser perfeito, é uma mulher com desejos e sentimentos
Por Apprendere • 11/05/2008

Nove meses de espera. Enquanto isso, com a maior euforia decora o quarto, faz o chá de fralda, pensa no nome, passa horas imaginando como será o rostinho. Tudo isso acompanhado da expectativa de realizar o desejo de ser mãe e sentir na pele todas as emoções. Enfim, conhecer e sentir o "tal" amor incondicional.

Nasce então o lindo bebê. Finalmente ocupa-se o sublime, enaltecido e praticamente santificado lugar de mãe... Aquela que padece no paraíso, sempre sorrindo, pois a insatisfação não combina com a maternidade. Mas, de repente, e, aliás, muito mais cedo do que o imaginado, a mãe percebe um filho que não dorme a noite inteira e também não a deixa dormir, que pode machucá-la enquanto mama, que não a deixa falar ao telefone com as amigas porque não pára de chorar, ou porque quer brincar com ela naquele momento, que deixa a casa toda desarrumada ou que rabisca toda a parede, que briga com o irmão o tempo todo e a chama para resolver pequenas coisas. Enfim, que a suga quase o tempo todo, deixando sua casa, sua vida e sua aparência de pernas pro ar. E, para dizer a verdade, nem era tão lindo assim quando nasceu!

De fato, às vezes é difícil evitar esses momentos de caos, mas é necessário assumir que sentimentos que nada têm a ver com amor também fazem parte do mundo das mães

Nesses momentos a mãe se depara com outros sentimentos não tão nobres assim, que não se enquadram na imagem de perfeição ligada à figura materna. Mas como é possível não duvidar nem por um segundo do amor pelo filho e em alguns momentos desejar ficar sozinha, sem obrigações com nada nem ninguém?

É muito fácil idealizar a figura da mãe, pois esta é capaz de fazer pelo filho coisas que ninguém mais faria. Por outro lado, é muito difícil admitir que sente irritação, impaciência, frustração, angústia e cansaço, como se estes sentimentos pudessem destituí-la da condição materna. Acontece que a mãe é mulher, é ser humano e não um ser à parte, vivendo num universo paralelo.

Assim, além das frustrações que fazem parte de todos os contextos da vida, inclusive da materna, há momentos em que ouvir choro de criança seria a última coisa que escolheria fazer naquele momento. Quando se está cansada, há coisas usualmente interessantes que podem tornar-se incômodas e quando não se dorme o suficiente, luta-se contra a necessidade de um bom sono, o que certamente diminui o prazer com que se poderia ver todas as coisas muito interessantes que as crianças estão fazendo.

De fato, às vezes é difícil evitar esses momentos de caos, mas é necessário assumir que sentimentos que nada têm a ver com amor também fazem parte do mundo das mães, pois, dessa forma, abre-se espaço para aliviar as tensões e elaborar as frustrações. Estar livre do rótulo de perfeita significa não haver necessidade de esconder insatisfações, somente assim é possível encontrar caminhos para resolvê-las.

Quando não se cuida do que se sente, corre-se o risco de agir de forma desmedida e incoerente. Quantas vezes, por conta do cansaço ou da irritação, não se exagera na bronca dada no filho ou no castigo imposto? Não se esqueça de que a criança está cumprindo o papel dela: chorar, brincar, correr, fazer bagunça e sugar a mãe. Cabe à mãe, com coerência e tranqüilidade, ir apresentando os limites para o filho. As crianças podem, de fato, irritar (e muito) as mães, mas a irritação, esta é sua, portanto, só você pode dar conta dela.

É preciso que a mãe cuide de seus sentimentos e para isso deve cuidar da mulher contida nela. Se preciso, nos momentos mais difíceis vale a pena pedir ajuda do marido, da mãe, dos irmãos. Permita-se descansar, relaxar, permita-se ser imperfeita. Os filhos não precisam de uma mãe perfeita, precisam da mãe real, capaz de reconhecer e equilibrar seus sentimentos.

Márcia Mattos é pedagoga e psicopedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico



Apprendere é uma clínica que reúne psicopedagogas, psicólogas e psicanalistas com experiência no atendimento a crianças, adolescentes e adultos, além de desenvolver pesquisas focando o desenvolvimento do sujeito no campo da saúde mental e educação.  Leia mais deste autor.




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