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Cada um na sua
Criança dormindo no quarto dos pais deve ser exceção, não regra
Por Espaço Apprendere • 24/08/2008

Muitos pais não resistem às solicitações dengosas, aos charminhos, aos chorinhos (ou, algumas vezes, "chorões") dos filhotes quando pedem para dormir em seu quarto ou na cama do casal. Resultado: a cama é ocupada por três.

Para a criança, a princípio, isso é motivo de felicidade; felicidade esta que pode trazer conseqüências não muito favoráveis, não só para ela, como também para os pais.

Apesar dos pais pensarem que estão fazendo o melhor - uma vez que deixar o filho dormir com eles seria uma atitude de acolhimento e carinho - na realidade, quando aceitam com freqüência a invasão do espaço que deveria ser exclusivo para a intimidade do casal, podem trazer prejuízos ao desenvolvimento da maturidade emocional do seu filho.

A questão é que se pode criar uma dependência no filho, que só se sentirá seguro se sempre estiver acompanhado pela figura protetora dos pais e poderá apresentar dificuldades ao estar isolado deles em diferentes ambientes

É importante que a criança tenha um espaço só dela para dormir e descansar com tranqüilidade. É claro que isso não significa que não divida o quarto com irmãos, até porque estes ocupam o mesmo papel na família, que é bastante diferente do papel dos pais. O mesmo vale para as famílias cujas casas têm apenas um quarto - ainda assim, é preciso buscar um espaço alternativo para o sono dos filhos, mesmo que seja a sala. O importante é marcar a diferença destes dois espaços: o quarto dos pais e o dos filhos.

O quarto da criança deve ser o lugar onde tudo lhe é íntimo: os brinquedos, livros, móveis, cama. Seu quarto deve ser seu refúgio, seu espaço de privacidade. É importante estimular a criança a dormir neste espaço reservado para ela. Vale a pena, também, pensar nos motivos que levam os pais a terem a dificuldade de pontuar isso aos seus filhos.

Nenhuma de nossas ações é inocente. Inocente no sentido de não haver algo por trás, um motivo, mesmo que inconsciente. O fato é que estamos sempre deixando mensagens para nossos filhos com nossas atitudes, por isso é importante pensar sobre elas.

Quantos pais permitem que os filhos durmam em seu quarto porque têm dificuldade em impor limites, em dizer não? Com isso, a criança cresce pensando que pode tudo, inclusive participar da intimidade do casal. Há ainda a situação dos pais que passam o dia inteiro trabalhando, chegam tarde em casa, e tentam compensar a ausência na hora de dormir, pois é o único momento em que podem ficar juntos.

Podemos pensar, ainda, nos casos após o divórcio do casal, em que a criança passa a dormir na cama com a mãe. É uma situação extremamente delicada, pois os filhos passam a viver uma nova realidade, de não terem mais a figura do pai em casa e, de alguma forma, podem sentir que a mãe espera que eles supram este espaço que ficou vazio. É preciso tomar cuidado, pois pode ser difícil para a criança o peso desta responsabilidade.

Mas, afinal, qual o problema em dormir no quarto com os pais? A questão é que se pode criar uma dependência no filho, que só se sentirá seguro se sempre estiver acompanhado pela figura protetora dos pais e poderá apresentar dificuldades ao estar isolado deles em diferentes ambientes.

Quando a criança é acostumada a dormir sozinha no quarto, é facilitado o rompimento de sua dependência emocional, desenvolvendo o conceito de estar segura mesmo longe dos pais. Assim, quando houver a necessidade dos pais de se ausentarem por algum motivo, a criança terá mais facilidade de se adaptar à situação de estar momentaneamente distante dos mesmos, sem experimentar a sensação de desproteção ou insegurança.

Além destas questões que interferem no desenvolvimento da criança, não podemos deixar de considerar os prejuízos para a vida do casal, que precisa de privacidade para seus momentos de intimidade.

Às vezes, a criança pode sentir-se insegura ou assustada por algo que tenha lhe acontecido e pedir "abrigo" no quarto do casal. Nessas situações, em que o acolhimento e a segurança oferecida pelos pais é de fato importante, vale mais combinar com o pimpolho de lhe fazer companhia em seu próprio quarto, até que adormeça. Depois disso, o pai ou a mãe volta para o seu quarto também.

Portanto, é importante manter a rotina de dormir em seu próprio espaço. O que não significa que não haja momentos de exceção, seja porque a criança está doente ou para estreitar os laços familiares num final de semana, por exemplo. Mas, lembre-se: só é benefício se funcionar como exceção, nunca como regra.

Márcia Mattos é psicopedagoga e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.



Espaço Apprendere é uma clínica que reúne psicopedagogas, psicólogas e psicanalistas com experiência no atendimento a crianças, adolescentes e adultos, além de desenvolver pesquisas focando o desenvolvimento do sujeito no campo da saúde mental e educação.  Leia mais deste autor.




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