Muitos pais não resistem às solicitações dengosas, aos charminhos, aos chorinhos (ou, algumas vezes, "chorões") dos filhotes quando pedem para dormir em seu quarto ou na cama do casal. Resultado: a cama é ocupada por três.
Para a criança, a princípio, isso é motivo de felicidade; felicidade esta que pode trazer conseqüências não muito favoráveis, não só para ela, como também para os pais.
Apesar dos pais pensarem que estão fazendo o melhor - uma vez que deixar o filho dormir com eles seria uma atitude de acolhimento e carinho - na realidade, quando aceitam com freqüência a invasão do espaço que deveria ser exclusivo para a intimidade do casal, podem trazer prejuízos ao desenvolvimento da maturidade emocional do seu filho.
É importante que a criança tenha um espaço só dela para dormir e descansar com tranqüilidade. É claro que isso não significa que não divida o quarto com irmãos, até porque estes ocupam o mesmo papel na família, que é bastante diferente do papel dos pais. O mesmo vale para as famílias cujas casas têm apenas um quarto - ainda assim, é preciso buscar um espaço alternativo para o sono dos filhos, mesmo que seja a sala. O importante é marcar a diferença destes dois espaços: o quarto dos pais e o dos filhos.
O quarto da criança deve ser o lugar onde tudo lhe é íntimo: os brinquedos, livros, móveis, cama. Seu quarto deve ser seu refúgio, seu espaço de privacidade. É importante estimular a criança a dormir neste espaço reservado para ela. Vale a pena, também, pensar nos motivos que levam os pais a terem a dificuldade de pontuar isso aos seus filhos.
Nenhuma de nossas ações é inocente. Inocente no sentido de não haver algo por trás, um motivo, mesmo que inconsciente. O fato é que estamos sempre deixando mensagens para nossos filhos com nossas atitudes, por isso é importante pensar sobre elas.
Quantos pais permitem que os filhos durmam em seu quarto porque têm dificuldade em impor limites, em dizer não? Com isso, a criança cresce pensando que pode tudo, inclusive participar da intimidade do casal. Há ainda a situação dos pais que passam o dia inteiro trabalhando, chegam tarde em casa, e tentam compensar a ausência na hora de dormir, pois é o único momento em que podem ficar juntos.
Podemos pensar, ainda, nos casos após o divórcio do casal, em que a criança passa a dormir na cama com a mãe. É uma situação extremamente delicada, pois os filhos passam a viver uma nova realidade, de não terem mais a figura do pai em casa e, de alguma forma, podem sentir que a mãe espera que eles supram este espaço que ficou vazio. É preciso tomar cuidado, pois pode ser difícil para a criança o peso desta responsabilidade.
Mas, afinal, qual o problema em dormir no quarto com os pais? A questão é que se pode criar uma dependência no filho, que só se sentirá seguro se sempre estiver acompanhado pela figura protetora dos pais e poderá apresentar dificuldades ao estar isolado deles em diferentes ambientes.
Quando a criança é acostumada a dormir sozinha no quarto, é facilitado o rompimento de sua dependência emocional, desenvolvendo o conceito de estar segura mesmo longe dos pais. Assim, quando houver a necessidade dos pais de se ausentarem por algum motivo, a criança terá mais facilidade de se adaptar à situação de estar momentaneamente distante dos mesmos, sem experimentar a sensação de desproteção ou insegurança.
Além destas questões que interferem no desenvolvimento da criança, não podemos deixar de considerar os prejuízos para a vida do casal, que precisa de privacidade para seus momentos de intimidade.
Às vezes, a criança pode sentir-se insegura ou assustada por algo que tenha lhe acontecido e pedir "abrigo" no quarto do casal. Nessas situações, em que o acolhimento e a segurança oferecida pelos pais é de fato importante, vale mais combinar com o pimpolho de lhe fazer companhia em seu próprio quarto, até que adormeça. Depois disso, o pai ou a mãe volta para o seu quarto também.
Portanto, é importante manter a rotina de dormir em seu próprio espaço. O que não significa que não haja momentos de exceção, seja porque a criança está doente ou para estreitar os laços familiares num final de semana, por exemplo. Mas, lembre-se: só é benefício se funcionar como exceção, nunca como regra.
Márcia Mattos é psicopedagoga e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.
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