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A família e as drogas
O uso de droga pode ter relação com vivências dentro do próprio lar
Por Apprendere • 27/05/2007

Neste artigo, pretendo trazer uma reflexão sobre a utilização de drogas pelas crianças e adolescentes e sua relação com a família. A experimentação e a dependência podem estar relacionadas às vivências infantis dentro do próprio lar. Os pais tornam-se responsáveis na medida em que são partes constituintes desse processo quando não atentos a o que, da sua relação com os filhos, pode desencadear esta problemática.

Um dos aspectos importantes quanto à utilização das drogas está remetida à dificuldade da criança em lidar com a lei, com a norma e com os limites impostos por aqueles que, ao longo da sua vida, representam a papel de autoridade. Podemos pensar que a criança que tem dificuldade em lidar com limites é fruto de uma família que tem dificuldades em impor os limites. Assistimos hoje a um certo alargamento, um afrouxamento quanto às regras estabelecidas e às leis que deveriam ser exercidas pelos pais.Ao contrário do que se espera da relação pais e filhos, o que temos, é uma criança reinando e ditando as normas que devem prevalecer na casa. Esta atitude, entre outras possibilidades, estaria relacionada às inúmeras culpas que esses pais carregam na relação com a criança: culpam-se porque trabalham muito; porque o casamento não deu certo e pensam que prejudicaram a criança por isso; porque não podem dar o novo vídeo game que acaba de sair no mercado... Simplesmente culpam-se.

É preciso pensar, no entanto, que é fundamental que a criança seja introduzida à lei. Lei esta que vai tirá-la do lugar de onipotente, permitindo assim que não se sinta ameaçada quando diante das faltas e dos vazios que irá viver


A estrutura psíquica da criança está diretamente remetida à organização social. É preciso, portanto, inserir a lei para que ela cresça de forma saudável. Se não há lei, a criança fica remetida aos seus próprios ideais, sendo assim, algo na sua constituição como sujeito falha.

O uso de drogas também pode estar relacionado à dificuldade que muitos jovens têm em lidar com a frustração. Não suportam viver os momentos de tristeza, medo, angústia e fracasso que a vida impõe a todos os indivíduos em determinados momentos. O que percebo no acompanhamento as crianças e suas famílias é que de modo geral não se aprende a elaborar o sofrimento dessas experiências junto aos pais. Geralmente são crianças que não têm um lar acolhedor, mas sim um lar que sublima e tampona essas dificuldades.

É preciso estar atento à conduta quando diante dessas situações, pois só é possível elaborar os sofrimentos e as vivências negativas quando há espaço para vivê-los. Não se pode esquecer que são os pais que precisam oferecer este espaço para os filhos, os pais é que estarão ensinando-os a lidar com as dificuldades, não só por acolhê-los e escutá-los diante das situações dolorosas, mas também por servir de modelo através de suas atitudes.

Caberia aqui uma pausa na leitura para nos perguntarmos: Permitimos que nosso filho fique triste? Que fale do que o incomoda? Conseguimos ouvi-lo falar de sua briga com o coleguinha do colégio, sem tomar partido, sem defendê-lo, mas antes de tudo escutando-o até que no momento seguinte possamos orientá-lo quanto a melhor forma de lidar com a situação?

Quanto tempo você suporta escutar seu filho chorando ou vê-lo infeliz porque não o deixou comer o biscoito antes do almoço? E por quantas vezes acaba cedendo deixando-o comer?
Você permite que ele chore ou fique triste quando, por exemplo, perde um brinquedo para outra criança no parquinho ou tenta sempre distraí-lo desviando o seu olhar para outra situação? Quando ele fala da sua paixão não correspondida pela menina da 1ª série que tem namorado você acha graça e desconsidera dizendo que é muito criança e que sentimentos como esses ainda não são importantes para ele, na tentativa de não vê-lo sofrer?

Ainda encontramos famílias que relacionam o choro e a tristeza a sentimentos ruins pertencentes às pessoas fracas. Quem nunca escutou a frase: pare de chorar menino, homem não chora! Ou ainda: olha só parece um bobo chorando! Às vezes são ameaçados pelas bruxas, pelo homem do saco e pela mãe que ameaça ir embora, sumir... se continuam falando através do choro, dos seus sentimentos.

Temos em exclamativas como estas, a negação do sentimento da criança. Deixamos de dar oportunidade a ela de falar da sua dor e de ainda inferir que todos podem sofrer e que num determinado momento pode-se até mesmo transformar esse sentimento em algo produtivo nas suas vidas. Já parou para pensar que ao viver essa experiência, a criança, ao menos, poderá aprender que a vida também é feita de momentos desfavoráveis, mas que ainda assim em muitos momentos é possível vivê-los e ultrapassá-los?

Nas reflexões que tento provocar acima, tenho como objetivo ilustrar como facilmente nos distanciamos da realidade buscando fora de nós mesmos a possibilidade de resolver os problemas. A droga também vai exercer esta mesma função, pois diante das dificuldades que o adolescente vive ela tem a "função" de aplacá-las, vem tamponá-las colocando-os por alguns instantes na posição de fortes e felizes, isto é: "sem problemas!"

Um outro ponto a ser considerado é a forma como os próprios pais lidam com as suas ansiedades e angústias. Hoje há um apelo social de que é preciso ser feliz a qualquer custo. Ter sucesso, dinheiro, reconhecimento profissional, felicidade na relação amorosa, corpos esculturais... No entanto, esse ideal nem sempre é correspondido e para suportar a angústia pelo que não dá certo, entram as substâncias que podem aplacar a dor dos que não suportam com ela conviver. E aí, pais tornam-se modelos para os filhos, quando em busca de uma felicidade ininterrupta e eterna pagam qualquer preço. Por exemplo: o pai que toma o uísque para relaxar da tensão do trabalho e dos respectivos conflitos, a mãe que fica nervosa porque tem que dar conta de uma série de situações e então toma um calmante para relaxar, pais que não podem viver momentos de tristeza e por isso tomam algumas pílulas que os tiram da sensação de mal-estar, pais que precisam cada vez produzir mais e em menos tempo tomam estimulantes e ainda como último exemplo podemos pensar nos pais que em busca dos corpos esculturais buscam os remédios para emagrecer ou para ficarem "fortes".

Podemos pensar, portanto, que as drogas ou qualquer outra substância estão a serviço de apaziguar a dor de existir que em muitos momentos é inerente ao ser humano. É preciso pensar, no entanto, que é fundamental que a criança seja introduzida à lei. Lei esta que vai tirá-la do lugar de onipotente permitindo assim que não se sinta ameaçada quando diante das faltas e dos vazios que irá viver, isto é, das dificuldades e impossibilidades que o mundo irá lhe oferecer.

Como é da falta que nasce o desejo, crianças marcadas pela lei vão em busca de superação, encontrando em cada obstáculo um desafio a ser superado e em cada dificuldade o sabor de tê-la ultrapassado. E ainda que algo não dê certo poderá viver o luto, a tristeza, entendendo que quando se vive, quando se é humano tudo pode acontecer. O importante é estar preparado para a vida, tal qual ela se apresenta.

Monica Donetto Guedes psicanalista, psicopedagoga e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico

Apprendere é uma clínica que reúne psicopedagogas, psicólogas e psicanalistas com experiência no atendimento a crianças, adolescentes e adultos, além de desenvolver pesquisas focando o desenvolvimento do sujeito no campo da saúde mental e educação.  Leia mais deste autor.




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