Deve-se ter também atenção à crueldade implícita no ato de colocar a criança para opinar ou decidir junto com a família sobre algo que ela ainda não teria condição de resolver. Principalmente quando o fato a obriga escolher algo que vai contrariar um dos pais. Sendo assim, o que ela está escolhendo não é uma das opções em questão, mas seu pai ou sua mãe ali representado.
Algumas crianças acabam "carregando o peso" desta escolha, isto é, carregando a culpa porque na sua fantasia preteriu um dois pais. Outras se negam e passam a repetir este movimento ao longo de sua vida, crescem sem poder fazer escolhas, omitindo-se das situações e deixando-as a cargo de um terceiro, ainda que elas sejam as maiores interessadas. Um exemplo disso são os jovens que passam pelo processo de orientação vocacional e que muitas vezes chegam ao consultório cheios de angústia porque estão "colados" nas profissões que os pais desejam para eles, nas profissões que a mídia diz serem as melhores, no curso que o amigo está fazendo ou vai fazer...
As brigas dos pais
Outro fato comum de acontecer no contexto familiar são as brigas do casal assistidas pelos filhos. É preciso compreender que dentro da família existem várias configurações, por exemplo, relação mãe e filho, pai e filho, as relações entre irmãos e a relação entre o casal. Gostaria de me deter a esta última.
O casal precisa preservar a sua intimidade e resolver os seus problemas e dilemas conjugais deixando os filhos fora deles. Não é interessante para a criança assistir, por exemplo, o marido desvalorizando a mulher ou a mulher desqualificando o marido. Isto porque quando a criança está envolvida no processo, o que fica para ela é a desvalorização e desqualificação do pai e da mãe. A criança que assiste os pais brigando ou discutindo pode não ter condições psíquicas para compreender o problema, e se manter fora dele. Pode ainda sentir-se ameaçada e com medo de que a dissolução da família esteja em iminência de acontecer. A angústia pode ser maior ainda quando o tema da discussão seja algo relacionada a ela.
Muitas vezes, a criança é equivocadamente convocada por um dos pais (ainda que inconscientemente) a exercer o papel de testemunha. O que quero dizer é que se um dos pares não estiver satisfeito com a relação e tenha até o desejo de repensá-la, a criança não deve participar diretamente do processo.
Deve menos ainda ser incluída literalmente nas brigas ou discussões do casal. É comum escutar o quanto é difícil sentir-se como uma peça de jogo (um curinga). O que é possível compreender é que neste jogo o que há por trás é a tentativa de fortalecer os argumentos contra um dos pais, o que para a criança é da ordem do impossível. Certamente, quando é levada a exercer este papel, algumas marcas serão deixadas no seu corpo psíquico.
É preciso respeitar a criança e a sua relação com cada um dos que fazem parte da família. É importante lembrar que quando o casal discute, é o marido e a mulher que estão com problemas. Portanto, ainda que entre outros sentimentos sintam raiva, ódio e rancor um do outro, o pai e a mãe contidos neste homem e nesta mulher devem ser preservados. Desta forma, se a mulher não agiu bem ou cometeu uma falta grave para a relação isto não quer dizer que a função materna foi comprometida. O mesmo vale para o marido.
Mônica Donetto Guedes é psicanalista, psicopedagoga e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.
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