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Pais permissivos
Responsabilidade se constrói, não é algo inato às crianças e adolescentes
Por Apprendere • 07/02/2010

No meu último artigo “limites X educação” comecei a apresentar alguns modelos de pais presentes na nossa sociedade. Dando continuidade a este artigo apresentarei outro modelo. É bom lembrar que a forma como se constituirão como pais influenciará diretamente na forma como os filhos se desenvolvem. Sendo assim, se a criança ou o jovem apresentam comportamentos inadequados e inaceitáveis que os colocam, por exemplo, diante de riscos ou perdas, não há como escapar, os pais são coparticipantes!

"Como assim?", você deve estar se perguntando. Muitas vezes a sua atuação junto à criança é que provoca um problema maior ou permite que se cristalize nele. Vou dar o exemplo de uma criança de 9 anos que, ao final da sessão terapêutica, pede à mãe para calçar seus sapatos e amarrá-los. Essa mãe sabe que a criança precisa criar autonomia, que para desenvolver-se de forma saudável precisar crescer e deixar de ser totalmente dependente dela. Sabe ainda que, para ter um melhor desempenho na escola, precisa reconhecer suas potencialidades e para que isso aconteça é preciso deixá-la fazer o que já é capaz. Ainda assim, cede ao pedido da filha.

É bom lembrar que não somos tão inocentes nas nossas ações e que certamente também ganhamos algo quando, a princípio, parece que estamos apenas protegendo e cuidando dos pequenos. Como muitas vezes não agimos conscientemente se torna difícil sair de uma posição à outra. Se não saímos, também impedimos as crianças de se livrarem dos lugares na qual estão aprisionadas.

Alguns pais não conpreendem porque o problema acontece apenas com um dos filhos e diante desta incompreensão não conseguem assumir a sua parcela diante da situação. É preciso entender que os filhos não recebem uma mesma educação ainda que nascidos do mesmo pai e da mesma mãe: cada filho tem uma representação na vida dos pais e por isso a forma de lidar com cada um deles será diferente. Pode-se "acertar" com um e "errar" com o outro sim!

Por exemplo, um terceiro e último filho pode ser muito dependente e sem iniciativa porque seus pais não o deixaram crescer exatamente por saberem (um saber muitas vezes inconsciente) que esse seria o último bebê da casa. Outro exemplo é de uma criança que passa, na infância, por problemas sérios de saúde. Apesar de curado e sem sequelas, no imaginário dos pais não consegue ser visto como uma pessoa saudável e por isso passa a ocupar o lugar do frágil, do fraco e do eterno doente. É por isso que na terapia com crianças muitas vezes não é possível trabalhar sem que a família seja incluída.

Vamos então a outros modelo de pais: PAIS PERMISSIVOS

Geralmente deixam por conta da criança e dos adolescentes a responsabilidade para decidir o que, quando e como fazer. Pensam que os limites são prejudiciais à criatividade e à imaginação dos pequenos e que os "nãos" podem deixar traumas. Talvez a grande diferença desse modelo de pais para os "pais muito tolerantes" seja a crença de que essa forma de educar dê bons frutos. Só que cometem um erro básico: responsabilidade se constrói, não é algo inato. Crianças e jovens precisam ser inseridos no mundo das responsabilidades. A criança não sabe até onde pode ir e os adolescentes tendem a testar até onde vão os seus limites. Se não os têm, os riscos são grandes!

Pais permissivos acabam deixando a criança viver experiências ou receber informações sem que ainda tenha maturidade para filtrar e assimilar apenas o que a princípio seria coerente com a fase em que se encontra. O excesso de informação pode trazer conseqüências físicas e emocionais. Como exemplo, lembro-me de uma menina de 11 anos, moradora de um condomínio de classe média alta de um bairro nobre do Rio de Janeiro que tinha acesso livre à internet e que começa a se comunicar com um traficante de um bairro próximo. O envolvimento é tanto que, seduzida pelo rapaz (bem mais velho), é convencida de deixá-lo ir ao seu apartamento.

Muitas vezes essas histórias parecem muito distantes das nossas experiências, no entanto, é preciso dar conta de que essas histórias começam da mesma forma de tantas outras que conhecemos: era uma vez um homem e uma mulher que se casaram e tiveram uma linda filha. A continuação, ah!, a continuação vai depender da capacidade de cada um de analisar e avaliar cada capítulo vivido neste enredo que se chama família. Continuamos no próximo artigo. Até!



Apprendere é uma clínica que reúne psicopedagogas, psicólogas e psicanalistas com experiência no atendimento a crianças, adolescentes e adultos, além de desenvolver pesquisas focando o desenvolvimento do sujeito no campo da saúde mental e educação. 




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