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Mitos da infância
Bruxa, Papai Noel, bicho-papão. Como lidar com as fantasias dos filhos
Por Ana Luiza Silveira • 11/08/2008

Levante a mão quem não teve Papai Noel e coelhinho da páscoa durante a infância, nem passou várias noites morrendo de medo da bruxa, do homem do saco e do bicho-papão. Pois é, estes são alguns dos mitos infantis mais populares presentes no imaginário de crianças de várias partes do mundo, e que atravessam gerações provocando o mesmo encanto e o mesmo temor. Apesar de serem invenções, muitas vezes oriundas de fábulas ou folclores, essas figuras têm forte papel no desenvolvimento infantil, já que ensinam a garotada a lidar com o mundo. Para desvendar o mistério por trás da sobrevivência desses personagens, o Bolsa conversou com algumas especialistas em psicologia infantil.

As crenças das crianças sobre a existência desses personagens imaginários são adquiridas com o desenvolvimento do pensamento simbólico, que ocorre entre os 2 e os 7 anos de idade. Esse período é marcado pela existência de atividades de faz-de conta, como brincar de boneca e fazê-la dormir, por exemplo. "Nessa fase, a criança ainda não desenvolveu o raciocínio lógico, que lhe permite pensar a respeito de fatos reais e diferenciá-los dos imaginários. Então, ela passa a usar a representação, que é a atribuição externa de significados, e o imaginário, ou seja, as fantasias, para explicar o mundo à sua volta", explica a psicóloga clínica Luziane Kirchner, do Grupo SOS Mãe Bebê, de Curitiba.

Uma fase como qualquer outra

Até os seis ou sete anos, a criança ainda não compreende o mundo da mesma maneira que os adultos. A fantasia ainda habita suas relações e seu aprendizado, fazendo parte da forma como ela compreende o mundo. "Nessa faixa etária, tudo o que é lúdico atrai e facilita a compreensão das mais diversas situações que vivemos. Assim, figuras como o Papai Noel, por exemplo, ajudam a compreender o Natal e tudo o que nele está envolvido. Esses personagens simplificam as situações e as tornam mais acessíveis ao entendimento da criança", ressalta a psicóloga Ana Camila Ramalho, de São Paulo.

É através dos mitos que as crianças passam a lidar com seus medos e frustrações e começam a tentar entender o mundo real, além de estimular seu potencial criativo e intelectual. "O medo do escuro pode se revelar através do pavor que a criança tem do bicho-papão, por exemplo. Na imaginação dela, esses personagens representam coisas boas ou ruins. Enquanto algumas coisas a assustam, outras a agradam, como os super-heróis, em que prevalece o lado bom", comenta Rossana Manso, counselor da Escola Americana, do Rio de Janeiro. É nessa fase, também, em que as crianças têm um amigo imaginário ou pensam que objetos têm vida própria. Em suma, elas estão cercadas de muita fantasia.

Personagens infantis também têm função educativa. Papai Noel e coelhinho da Páscoa, por exemplo, podem ajudar a criança a compreender a simbologia e a organização temporal das datas comemorativas. Outros podem transmitir a percepção de alguns valores fundamentais. De uma maneira simples e direta, as crianças aprendem sobre respeito, amizade, amor, bondade, cooperação, maldade. Também aprendem a compreender sentimentos, como alegria, tristeza, raiva e medo, entre outros.

Incentivar ou reprimir?

Viver no mundo da fantasia, enquanto a criança é pequena, é perfeitamente saudável, mas muitos pais não sabem se devem incentivá-la ou reprimi-la. O que fazer, afinal? "Nem uma coisa nem outra. Essa é uma fase como as outras, importante para o desenvolvimento da criança, e precisa ser encarada com naturalidade. Só haverá problemas se ela passar a maior parte do tempo dissociada da realidade. Isso acontece quando ela demonstra ter mais prazer brincando com amigos imaginários do que com amigos reais", diz Luziane.

Outro problema é se a fantasia for muito além dos sete anos de idade, sinal de que algo no desenvolvimento da criança precisa ser investigado. Se ela ainda resiste em acreditar nesses mitos, é hora de procurar a ajuda de um profissional especializado. "A criança de dez anos que ainda precisa desses mitos pode estar precisando lidar com algum conflito. Medo de uma escola nova, da separação dos pais. Agora, se essa crença é fruto do incentivo prolongado vindo dos pais, a criança corre o risco de infantilização", opina Rossana Manso.





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