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Fugindo dos rótulos
Rotular qualidades ou defeitos impede que as crianças explorem outras formas de ser
Por Apprendere • 28/03/2010

Muitas vezes, por conta de rótulos que nos atribuem, ficamos aprisionados num determinado lugar, numa determinada faceta de nossa personalidade e somos reconhecidos apenas por esta característica. Os rótulos, embora sejam uma qualificação superficial de alguém, podem trazer desdobramentos nada saudáveis, principalmente, quando vindo dos próprios pais.

Quantas vezes, por conta da repetição de determinadas condutas ou situações, não taxamos as crianças de desastradas, pois esbarram em tudo e derrubam os objetos; de tímida porque não se sente à vontade diante de um grupo desconhecido; de agressiva porque reage ao que não gosta batendo ou de certinha quando não experimenta fazer peripécias?

A criança em formação é suscetível ao olhar do outro sendo influenciada, principalmente, pelo que os pais pensam sobre ela. Por isso, quando enquadrada em uma única categoria, perde espaço para a saudável liberdade de experimentar outros papéis e posturas, deixa de se arriscar naquilo em que, diante da opinião do outro, não se sairia tão bem. E fecha, desta forma, a possibilidade de livrar-se daquele rótulo a ela atribuído.

Por conta da forma como percebem os filhos, não é difícil observar situações em que os pais se antecipam aos filhos falando ou escolhendo por eles. Opa! Sinal de alerta máximo para esses momentos, pois esta é uma atitude extremamente prejudicial para o desenvolvimento do sujeito. Imagine uma criança que é considerada desastrada e lhe pedem que entregue saquinhos de pipoca para os colegas. Ao ouvir, a mãe logo intercede dizendo: "Ih, isso não vai dar certo!".

Ou uma criança tímida que é chamada para brincar e a mãe responde por ela: "Ah, ela não gosta!". É natural que os pais queiram poupar seus filhos de sofrimento, mas responder por eles significa avançar o sinal, entrar num terreno que não é seu. Deixe-o decidir, permita sempre espaço para a mudança. Pode ser que ele queira e possa fazer diferente e não cumprir o mandato que lhe foi apresentado. Até porque algumas características são transitórias, fazem parte de uma determinada fase da infância ou da adolescência, logo, irão passar.

Por outro lado, pode ser que de fato os pais observem determinado traço marcante em seu filho e conversar com ele sobre isso é saudável, mas considerando a característica como um estado e não como essência. Ao substituir o ser assim por estar assim, possibilitamos espaço para ressignificação, afastando a tendência a cristalizar o sujeito naquele lugar. Rotular é sempre inadequado, pois evidenciamos uma única característica e desconsideramos todas as outras que também constituem aquele sujeito.

Não se é apenas uma coisa, mas um conjunto delas. Ser reconhecido por apenas um de nossos traços é no mínimo injusto e limitador. Seres humanos estão em constante evolução, transformação, superação, portanto não limite a criança a um rótulo, ela precisa experimentar diferentes possibilidades sem medo e sem culpa. Rótulos servem para embalagem de produtos, pois os produtos são imutáveis até serem consumidos, o ser humano, felizmente, não!



Apprendere é uma clínica que reúne psicopedagogas, psicólogas e psicanalistas com experiência no atendimento a crianças, adolescentes e adultos, além de desenvolver pesquisas focando o desenvolvimento do sujeito no campo da saúde mental e educação. 




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