Identificação ou genética?

Muitas vezes os pais explicam características e determinados comportamentos dos filhos através da identificação com eles próprios. Cheios de orgulho dizem: "Ele é muito extrovertido, puxou a mim!" ou condescendentes: "É atrapalhado igual a mim!", como se somente a genética fosse determinante para definir características e traços de personalidade. Mas e a aprendizagem? A figura dos pais como modelo de referência, onde fica?

As figuras paterna e materna são essenciais para a constituição do sujeito: as primeiras relações de afeto e amor deixam marcas importantes na criança. Os pais são responsáveis por apresentar as regras sociais de acordo com seus valores morais. Assim, desde cedo, a criança aprende que nem todos os seus desejos podem ser realizados livremente. A relação entre desejo e possibilidade e a forma como os pais ajudam seus filhos a lidar com este binômio é determinante em sua formação.

É preciso ter cuidado com esta idéia de "nasceu igual a mim", pois sugere a condição de imutabilidade, como se fosse um mandato a ser cumprido

O desenvolvimento e constituição da criança estão intrinsecamente ligados ao que ela aprende do que lhe é ensinado e do que observa. Neste sentido, a figura dos pais funciona como modelo de referência, de onde a criança internaliza conceitos, idéias e modalidades de funcionamento para relacionar-se consigo mesma, com os outros e com o mundo.

Desta forma, torna-se questionável a idéia de que o filho "puxa" à personalidade dos pais, não acham? Não puxa. Não nasce igual e, sim, aprende! É preciso ter cuidado com esta idéia de "nasceu igual a mim", pois sugere a condição de imutabilidade, como se fosse um mandato a ser cumprido. Pai ou mãe é assim, então assim o filho será. Muitas vezes, por conta disso, a criança se vê presa neste lugar, sem a possibilidade de ressignificação.

Quando a identificação é considerada como um aspecto positivo é mais tranqüilo para a criança assumir este papel, porém, muitas vezes recebo na clínica famílias relatando, por exemplo, que o filho tem sérias dificuldades em Matemática e que puxou ao pai, que também era assim - então, não tem jeito. Ora, dificuldade de aprendizagem é genética? Claro que não!

É preciso investigar o motivo de tal dificuldade, assim como a necessidade de identificação com determinada característica dos pais, mas acima de é importante saber que é possível superá-la. O ser humano possui o grande diferencial da transformação, portanto a história do "não tem jeito" não existe. Toda dificuldade, com a devida ajuda, pode ser transformada. Não cristalize seu filho no lugar da dificuldade por identificar-se com ele. Cada um tem a sua história, que não precisa ser repetida.

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Não somos inocentes em nossa fala. Mesmo sem pensar a respeito, nossas idéias estão ligadas a um determinado conceito, à forma como entendemos o mundo. Neste caso, a idéia de que o filho puxa aos pais traz uma condição inata, o que pode contradizer a importância do papel dos pais na formação da personalidade da criança. Portanto, não se acomode com a genética e comprometa-se com a formação do seu filho.

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