Antes da hora > Adiado o sonho da maternidade
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Por Luana Martins • 23/04/2009

Com a menopausa estabelecida, as chances de uma gestação espontânea reduzem-se significativamente. "A probabilidade de uma gravidez pode cair para 10%. Em algumas pacientes observamos que os óvulos e folículos, apesar da aparência normal, não funcionam adequadamente", explica Fábio. Ane confessa nunca ter sido maternal, mas receber a notícia do climatério não foi fácil. "Por ser muito jovem não pensava em engravidar tão cedo, mas quando conheci meu marido comecei a pensar em uma menina. Queria que nossa filha tivesse o jeitinho dele. Só que até entrar na menopausa definitiva, minhas chances de engravidar são de apenas 15%. Posso nunca mais ovular, ovular ainda muitas vezes ou só de vez em quando. É uma loteria muito dolorosa", desabafa Ane.

A falta de libido é outro agravante. "A diminuição da produção hormonal leva à dificuldade de lubrificação vaginal, dores durante a relação sexual e diminuição da libido. Além disso, a própria dificuldade em engravidar e a irritabilidade advinda desse fato podem diminuir o interesse sexual da mulher", revela Fábio. Foi essa a causa de Ane ter chegado a dizer ao marido que entenderia se ele a largasse: "A falta de desejo aliada à impossibilidade de engravidar fazia com que eu me sentisse péssima - um fracasso como mulher e esposa", relembra.

Sem dúvidas, o maior desafio para passar pela menopausa precoce é lidar com os próprios preconceitos

Reduzidas as chances de uma gravidez, as técnicas de reprodução assistida têm aparecido como a salvação para muitas famílias. "Atualmente, a recepção de óvulos (ovodoação com fertilização in vitro) doados por mulheres mais jovens tem se revelado a melhor forma de tratamento para as mulheres que desejam engravidar. Ela aumenta em até 50% a chance de uma gestação", revela Fábio.

A reposição hormonal

A medicina ainda não descobriu como prevenir a chegada precoce da menopausa e tampouco há cura. Mas a reposição hormonal pode devolver a qualidade de vida perdida. "O principal objetivo do tratamento é aliviar os sintomas provenientes da deficiência dos hormônios ovarianos (estrogênios) e realizar a manutenção da massa óssea, prevenindo a osteoporose", explica Fábio. Além da administração de estrogênios (hormônios femininos), a reposição de hormônios masculinos (androgênios) pode ser uma boa alternativa para as mulheres que se queixam de fadiga e perda ou diminuição da libido.

Patrícia está seguindo o tratamento e garante que os resultados são surpreendentes. "Estou amando: meus calores são quase imperceptíveis e meu humor está ótimo. Desinchei e meu desejo voltou", conta. No entanto, ao iniciar a medicação é preciso cautela: "Estudos apontam que a reposição hormonal não é isenta de riscos. Quanto maiores as doses e o tempo de utilização dos hormônios, maiores os riscos de desenvolvimento de tumores, sobretudo, em mamas e útero", esclarece Fábio. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental. "De seis em seis meses tenho que visitar o ginecologista e repetir uma série de exames: de sangue, mamografia, ecografia transvaginal e dos seios, densitometria óssea e o papanicolau", revela Ane.

Além da reposição hormonal, a prática de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada rica em cálcio e soja fazem parte do tratamento. "Eles não agem na causa da disfunção, mas diminuem a chance de desenvolvimento precoce da osteoporose. A soja, por sua vez, é rica em fitoestrogênios (hormônios naturais) que melhoram os sintomas indesejados", justifica Fábio. Ane sabe que a dieta é de extrema importância e por isso recorreu à ajuda de um endocrinologista. "O metabolismo da mulher fica bem mais lento durante a menopausa e há uma grande dificuldade para manter o peso. Ele tem me dado dicas do que comer e dos alimentos ricos em nutrientes que meu corpo agora tem mais dificuldades em absorver, como o cálcio e o ferro", justifica a secretária.

O recomeço

Sem dúvidas, o maior desafio para passar pela menopausa precoce é lidar com os próprios preconceitos. "É comum a mulher ser assolada por uma infinidade de dúvidas e temores: se achar velha, pensar que está no fim da vida, se sentir menos atraente e mulher", revela a psicóloga Kátia Ricardi de Abreu. Mas não há motivos para sentir-se menos feminina: "Desde a descoberta da menopausa precoce (com 21 anos), nada mudou. Ao contrário, melhorou: você volta a ser menina sendo mulher. Hoje, eu e meu marido voltamos a ser namorados, sem risco de gravidez e sem TPM. Sou uma nova pessoa", afirma a designer gráfica Lenita Almeida (37 anos).

Kátia aprova o comportamento de Lenita e acredita que traçar novos objetivos de vida é uma forma de buscar a felicidade. "É necessário fazer uma pausa para reavaliar quais serão os valores dali em diante e até fazer um planejamento para viver melhor a fase que está por vir, ver as vantagens de tudo isso. Não menstruar, por exemplo, pode ser encarada como uma forma de liberdade", sugere Kátia. "Hoje me distraio com meu trabalho, penso que agora sou mais madura, que sei mais do que antes. Estou mais centrada, menos preocupada e levando a vida mais leve", conta Patrícia.

Para as mulheres que tiveram o sonho da maternidade interrompido por conta da chegada da menopausa, Kátia conforta: "Existem muitas formas de realizar-se como mãe, não é apenas gerando um filho. Toda vez que estamos em contato com crianças, estamos vivenciando a maternidade. Assim, ser tia, ter afilhados, conviver com crianças dentro da própria família é uma forma de vivenciar a maternidade. Adotar é outra saída, afinal tem muita criança precisando de cuidados, carinho, amor", finaliza a psicóloga.



Luana Martins  



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